Published online at Centopéia
Quanto ao caráter sagrado da poesia em seu primeiros dias, não subsiste dúvida. ConstituÃÂa, juntamente com os gestos, os rituais das religiões primevas de nossos predecessores.Era , para dizê-lo com Heidegger, o momento da â instauração do serâÂÂ.
Passou depois a ser canto, madrigal, ode, epitáfio, desafio: passou pela idade de ouro, de prata, bronze e ferro…ah, ia esquecendo, pela idade dos heróis, também. Teve imensos cultores em vários continentes e grandes crÃÂticos(especialmente os românticos e os pós-românticos) que estabeleceram cânones e regras.
O que está em dúvida — hoje em que os tempos não parecem propÃÂcios (vejam-se os trabalhos sobre Poesia em tempo de Guerra e Banalidade, publicados em SIBILA n.10 (ensaios) e n.11 (poemas))*, e, por outra, em que tanto tende a se chamar poesia — é o que ainda pode sê- lo, em termos de criatividade transformadora.
A inclusividade
Um dos ensaios mais interessantes de SIBILA n.10, do qual vamos tratar aqui, nos vem da remota Finlândia, o pequeno paÃÂs que temperou seu aço espremido ao lado da então todo-poderosa União Soviética, e seu autor ( jornalista-ativista polÃÂtico, comunista sem ser esquerdista-poeta) Leevi Lehto** dá-nos umas respostas que, curiosamente, vêm inicialmente atualizar dois dos mais conhecidos textos ocidentais sobre poesia, o de Heidegger (1916) sobre a essência da poesia e o de Benjamin (1915) sobre dois poemas de Hölderlin***.
Nesse nosso mundo de Guerra e de Banalidade, diz Lehto (referindo-se ao tÃÂtulo do Seminário Internacional de Poesia realizado no Espaço Cultural CPFL em maio e junho de 2006, em Campinas.,que os números 10 e 11 da SIBILA abrigam ), a poesia â tem a capacidade de olhar a estupidez e a barbárie no olhoâÂÂ, no sentido também de aceitá-las, inclusivamente, mas anti-ideologicamente.
Esta inclusividade levou a formas contraditórias e extremadas: a poesia vista como â a mais inocente de todas as ocupaçõesâ e, ao mesmo tempo, como â o mais perigoso dos bensâ (H) por estar fundada na e fundar a linguagem enquanto palavra essencial, autêntica .
Enquanto mediação entre formas extremas, pensamento x sensorialidade, racional x irracional, particular x universal, sublime x trivial etc., no sentido de âÂÂabranger tudoâÂÂ, trilha a poesia outra dimensão:a da incomprensibilidade.
A incomprensibilidade
âÂÂHabitar poeticamente â diz Heidegger â significa estar na presença dos deuses [que a poesia invocou] e ao mesmo tempo ser tocado pela essência das coisas próximas. Que a existência humana é poética em seu fundamento significa â para além de qualquer esforço do homem que não chega àrazão de ser da existência humana â que sua instauração não é um mérito, mas uma doação.â A poesia não é um ornamento que acompanha a existência humana, nem tão somente uma passageira exaltação, ou calor da hora, ou diversão. Ela é o fundamento que suporta a história, e por isso não é tampouco uma manifestação da cultura, e menos ainda a mera âÂÂexpressãoâÂÂda âÂÂalma da culturaâ (H.139) A essência da poesia deve ser concebida como essência da linguagem, ou melhor, a essência da linguagem ( da linguagem primitiva de um povo histórico) é a essência da poesia.
Mas â somente às vezes suporta o homem a plenitude divinaâ e âÂÂdeve partir a tempo/aquele por quem fala o espÃÂritoâÂÂ( respectivamente versos de âÂÂPão e vinhoâ e de âÂÂEmpédoclesâ de Hölderlin, citados por Heidegger), daàa incomprensibilidade tal como era definida na época : a excessiva clareza afunda o poeta nas trevas (Heidegger).
Se, como diz agora Lehto, a poesia perdeu a incomprensibilidade hoje, isso teria acontecido por dois motivos. â Poderia ter perdido sua conexão com o ideal ou â um caso ainda mais grave â a estupidez e a barbárie poderiam ter adquirido novas dimensões, tornando-se fortes demais para a poesia [poder] abrangê-las e até mesmo tornando-se capazes de engoli-la.âÂÂ
Mas deixemos a poesia lidar com isso ela própria, continua Lehto, que se considera um otimista: tampouco o presente nos pertence. [Os tempos] já não nos pertencem, da mesma maneira que eles já nos pertenceram. A queda do Muro de Berlim (1989), a expansão da Internet, a Globalização e o Capitalismo â faz questão de frisar Lehto — apontam para um mundo completamente novo onde nada é o que já foi.
Tradição e Capitalismo
Até mesmo a âÂÂTradiçãoâ para Lehto é mais uma âÂÂtradição de rupturasâ , de uma constante separação do obsoleto: a idéia de ilhotas de liberdade, sempre temporárias, marginais, com fronteiras instáveis e proporcionais â mas só parcialmente â àHistória ( nem contÃÂnua , nem teleológica) e que limitam com as anteriores âÂÂtentativas do mesmoâÂÂ.
Diria Lehto que o Capitalismo nunca produz tais ilhotas, mas â parece â nunca deixa de produzir possibilidades para elas. â Não posso acreditar nelas; não posso deixar de acreditar nelas. Talvez eu resumisse minha atitude em duas formulações de dois grandes pensadores marxistas que me influenciaram na juventude: ôpessimismo do intelecto, otimismo da vontade ô de Gramsci, e ôMaterialismo aleatórioô- de Althusser. Em todo caso, para mim a história é aberta. Aberta, mas cega. Cega, porque aberta.âÂÂ
Voltando àpoesia, â nunca senti uma necessidade ôsériaô de me expressar, nenhum desejo juvenil de ôdesabafarô; apenas um (bem humorado) apetite de produzir algo novo ( para mim), um tipo de desejo vazio que não sabe o que procura.E a colisão â lateral, diria â desse desejo com a ainda jovem tradição da moderna ficção finlandesa.âÂÂ
âÂÂAcontecia, porém, que quanto mais âÂÂentendiaâ minha própria tradição, mais ficava claro para mim que não poderia partir dela, distanciando-me, ir para lugar algum. Para que a segunda parte de minha obra decolasse [O âÂÂGoogle Poem GeneratorâÂÂ, que Lehto.inventou em 2002] foi necessário um novo confronto lateral, dessa vez com uma grande tradição estrangeira: a Language Poetry norte-americana. O que me interessava nela era exatamente o fato de que eu não podia sequer imaginar entendê-la: por causa da distância geográfica e porque a Language não tinha a intenção de ser entendida.àMas não há progresso sem influências : a minha mente e seu outro incompreensÃÂvel: sempre de um outro lugar. Sempre lateralmente.âÂÂ
ABC do pensamento e criação de conceitos na Poesia
âÂÂDiria que essas duas experiências combinadas [ inclusividade e incompreensibilidade] â continua Lehto — ensinaram-me o ABC do pensamento, que resumo assim: a poesia é pensamento â apenas uma forma de pensamento na qual, com freqüência, certas contradições internas podem ser levadas mais longe e reveladas mais abertamente do que em qualquer outra. Em segundo lugar, o pensamento não é a atividade de um sujeito auto-expressivo, um â raciocÃÂnioâ ou ôracionalizaçãoâ , não é uma tomada de consciência da proporção entre as coisas, mas pelo contrário, é se expor àdesproporção das coisas , ao â não-entendimentoâÂÂ: criar conceitos, como se diria na nova teoria francesa. Em poesia, pelo menos, o pensamento também chega até nós de um outro lugar, deixando-nos â fora de nós mesmosâÂÂ.ànão-subjetivo mas também é não-comunal. Num certo sentido isso quer dizer que a poesia não pode ser polÃÂtica, e ainda deve resistir a toda tentativa de se tornar socialmente útil. Como a resistência para Negri, para mim — afirma Lehto –, a poesia não pode existir no contexto de um Contrato Social no qual é necessário supor a existência de um sujeito histórico ( a pátria, o povo, as classes operárias…a literatura… o movimento… a empresa…), com o qual o indivÃÂduo/poeta se identifica da mesma maneira que os sujeitos individuais se tornam âÂÂcientesô por meio da ideologia.âÂÂ
Resistência
âÂÂPara nos opormos aos males da Globalização [trivialidade, guerra como auto-evidente continuação da polÃÂtica, midiatização da guerra , militarização da mÃÂdia, indústria da mÃÂdia…] temos apenas a dissolução e a fragmentação de todo tipo de resistência…Estou convencido de que haverá espaço [ para um otimismo da vontade] e de que a poesia pode recuperar sua â perspectiva e urgênciaâ aproveitando precisamente sua relação particular com a Barbárie e a Banalidade em pauta: em geral, enfatizando sempre mais radicalmente sua própria insignificância e renovando constantemente sua relação com sua própria incompreensibilidade.O enigma do significado poético não pode se reduzir ao usoâÂÂcorretoâ nem ao uso incorreto da linguagem ( apesar do último resultar mais produtivo): a poesia inclina-se para algo que vai além disso e que está ligado ao que é chamado de â escrita conceitualâ ( a Conceptual Writing de Dworkin, Goldsmith, Weshler-Henry etc.), e que eu chamaria de âÂÂo sublime linguófugoâÂÂ.
Explico-me.âÂÂ
Proposta
âÂÂAs comunidades lingüÃÂsticas tradicionais ( em geral associadas ao estado-nação) estão perdendo seu caráter unitário: temos um nexo de linguagens especializadas que se fragmenta rapidamente. Tais linguagens especializadas( gÃÂrias, jargões etc.) de fato evoluem com suas respectivas lÃÂnguas gerais, mas não podem ser reduzidas a elas. â as influências nas margens da linguagem com freqüência têm uma importância maior.
De maior interesse para essa mudança ( tanto para o futuro da poesia como para o futuro do mundo) â e esta é minha afirmação principal neste ensaio â é que essa mudança parece não impedir as possibilidades de uma interação humana, mas pelo contrário, tende a aumentá-las. Comunhão e pertencimento, enquanto sentimento de unidade â são vistas como mutuamente dependentes. Quero propor o contrário: talvez a comunalidade seja entendida melhor como a experiência da linguagem do outro, uma lÃÂngua que nunca será compreendida totalmente, que nunca será â dominadaâÂÂ, mas que situa você num lugar do mundo onde você pode falar como uma singularidade, como um modo único numa multidão infinita. ( não mais como membro da comunidade, como sujeito do Contrato Social).âÂÂ
âÂÂEsta nova lÃÂngua, enquanto visão de um novo tipo de World Poetry que ainda não existe, poderia ter as seguintes coordenadas: independência das literaturas nacionais ( do tipo da Weltliteratur de Goethe); mistura de lÃÂnguas; empréstimo de estruturas alheias, rÃÂtmicas e sintáticas;invenção de novas lÃÂnguas [como o caso do zaúm de V. Khlébnikov]; tentativas de escrever para um público heterogêneo, etc.âÂÂ
âÂÂVoltando ao inÃÂcio, àGuerra, àBarbárie e ao Capitalismo, a fragmentação e a dissolução de que falo é de fato gerada pelo Capitalismo, também produtor da â voracidade comunicativa e midiáticaâÂÂ. Como separar ou conciliar essas tendências?
A indústria midiática global é tÃÂpica dos fundamentalismos, onde condensa e simplifica a complexidade do mundo mediante slogans vazios e primários: â Nós contra os MalfeitoresâÂÂ; âÂÂA Guerra Santa contra os InfiéisâÂÂ, etc. etc. Mas também ( cf. Althusser e Gramsci) funciona como uma espécie de â colaâ que une a sociedade â uma ideologia onipresente que , de um lado, obriga os indivÃÂduos a se tornarem sujeitos num reality-show, fazendo coisas â inversasâ ao seu ser social, e, no outro, obriga os indivÃÂduos a pilotarem um avião contra as Torres Gêmeas… Lá, uma ideologia dominante e unificante; aqui, uma crescente fragmentação que requer um tipo totalmente novo e diferente de interaçãoâÂÂ.
âÂÂApesar dessas duas maneiras terem muito em comum, gostaria ( por brincadeira séria) de traçar uma linha de contradição entre elas.Lembrando que caracterizei a poesia como anti-ideológica, vou valer-me dos termos â ideologiaâ e â trabalho imaterialâÂÂ.Na teoria marxista a ideologia se situava na superestrutura, num nÃÂvel isento de evolução, herdado da antiga sociedade e devendo ser eliminado para permitir o â desenvolvimento livre das forças produtivasâÂÂ. Posteriormente ( século XX) esta teoria foi substituÃÂda pela mencionada teoria da âÂÂcolaâÂÂ, que apresentou outro problema: como pensar na possibilidade de uma consciência revolucionária se desenvolver fora dessa ideologia onipresente? ( Isso se põe em relação ao futuro da poesia.)âÂÂ
âÂÂPois bem, sugiro que pensemos em nosso tempo como aquele em que o Capitalismo entrou finalmente em contradição com os seus alicerces, com sua superestrutura e com sua ideologia dominante (conforme já disse, a fragmentação â positiva â é um produto do capitalismo.) Faço agora a seguinte provocação: se ainda procuramos fazer com que a poesia tenha relevância, â perspectiva e urgênciaâ dentro do esquema capitalista, temos que situá-la â ela que é uma atividade â que nada produzâ e a mais insignificante das artes — na base material e econômica da sociedade, como parte de suas forças produtivas.âÂÂ
âÂÂDe fato, muitos teóricos hoje vêem como sendo a parte mais dinâmica da produção atual justamente o assim chamado âÂÂtrabalho imaterialâÂÂ( seu ser para si, sua tendência àauto-suficiência, — o que é parte de todo o trabalho intelectual). Mas â essas noções não são por acaso exatamente os ingredientes centrais da velha utopia marxista do comunismo?âÂÂ(Cf. Teses sobre Feuerbach de Marx: â Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras, o fundamental agora é transformá-lo…. O fundamental não pode deixar atrás o pensamento, mas torná-lo uma força ativa e, sim, produtivaâÂÂ.)
âÂÂExistem pontos em comum. Se há um futuro nesse sentido, a poesia contribuirá para ele cumprindo seu papel, para onde isso a conduzir.âÂÂ
* * *
Afinal, para onde seria conduzida a poesia?
O editorial da SIBILA fala da poesia de nosso tempo como uma produção cada vez maior, mais prolixa, dentro de ambientes cada vez mais homogêneos e conforme com uma dimensão mediana, sendo que se descrê em sua ação transformadora .
Com esse amortecimento das expectativas dá-se o indiferentismo, a alienação e o tédio. Mas pode existir uma criação que renuncie àtransformação?
Pois bem, responde Lehto, não pode existir uma criação que renuncie àtransformação e â justamente por isso — a maioria das questões atinentes àpoesia hoje redunda numa única questão: as (novas e mutáveis) condições de sua produção.E essas novas condições de produção da poesia, capazes de âÂÂdesnaturalizar o desastreâÂÂ, debelar â o indiferentismoâ de que fala o Editorial,. e até produzir algo para a fruição de uma vida amena, estão relacionadas àINTERNET, ao mesmo tempo expressão das mais importantes tendências do Capitalismo e metáfora para desafio ao Capitalismo enquanto tal.
Como e por quê, o leitor terá o prazer de descobri-lo na última parte do ensaio.
Notas
* Martins Editora Livraria Ltda . â ano 6 â novembro de 2006
** âÂÂPlurificar as linguagens do trivialâ in SIBILA ano 6.n.10. novembro de 2006 (doravante L.)
*** âÂÂHolderlin y la Esencia de la Poesiaâ in Martin Heidegger Arte y Poesia, Fondo de Cultura :Econômica, México, 1973 (doravante H) e âÂÂDeux poèmes de Friedrich Hölderlinâ in Walter Benjamin . Mithe et violence, Denoël, Paris, 1971.
Aurora Bernardini
Professora de pós-graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada da USP
Prêmio Paulo Rónai de tradução de 2006 com a obra IndÃÂcios Flutuantes (Poemas) de Marina Tsvetáieva. Colabora no site www.centopeia.net